
30 de novembro de 2003
Mineirão
Cruzeiro x Paysandu
Primeira final antecipada da história do Campeonato Brasileiro por pontos corridos.
E eu, claro, não poderia deixa de estar lá!!!!
E eu, claro, estava lá!!!!
Mas não pensem que foi tão simples assim.
Passei por todas as provas de amor ao seu time que um torcedor pode passar.
No primeiro dia de venda de ingressos, acordei às seis horas da manhã e fui para a fila... tsc tsc... quanta inocência.
Quando eu cheguei, já havia muita, mas muita gente por lá. Fui procurando, toda tímida, o seu final e, quando achei, sentei. Sentei pq eu sabia que ia demorar. E não deu outra. Fiz amigos na fila, guardei lugar para as pessoas irem ao banheiro, guardaram meu lugar para eu ir ao banheiro, joguei truco, fiz lanches ocmunitários, li Chico Bento, fiz palavras cruzadas, levantei, andei, sentei e levantei de novo, fui ao banheiro de novo e sentei de novo, levantei de novo, fui ao supermercado, comprei biscoito, sentei de novo... e nada de a fila andar. Cinco horas da tarde e eu parada no mesmo lugar... todos nós parados exatamente no mesmo lugar!
Pouco tempo depois chaga a notícia que os ingressos não iriam mais ser vendidos naquele dia e nem naquele lugar. Pois é galera... confusão na certa, é claro.
Correria, tumulto, policiais, cavalos, policiais em cima de cavalos, empurra-empurra, bomba de efeito moral, pessoas chorando (inclusive eu) e tudo mais... menos o ingresso na mão. Sim, voltei pra casa desolada. Sim, voltei pra casa desolada e chorando. Havia ficado quase doze horas na fila e nada de ingresso... nada... nem umzinho de geral!
A solução, então, seria radicalizar.... e fui isso que eu fiz.
No outro dia acordei às 2 da manhã e fui sozinha para a sede do Cruzeiro. Era a minha última opção. Lembro-me até hoje da reação de espanto do taxista quando eu disse para onde queria ir. E fui. Quando cheguei, de novo, me deparei com muuuuuitas pessoas que estavam atrás da mesma coisa que eu. Pedi o taxista que desse a volta no quarteirão e a cena me deu medo. Duas e pouca da madruga, integrantes de torcidas organizadas faziam fogueira na fila e se enrolavam em cobertores... e só eu de mulher. Não vi nenhuma mulher na fila e, quando achamos o final dela, ele me perguntou: "tem certeza que vai descer aqui??? É muito perigoso, vc não acha não??" É claro que eu achava, mas não havia outra opção. Era isso ou assistir ao jogo pela TV, num buteco. Ou seja, desci. Desci com toda a convicção do mundo que estava fazendo a coisa certa. E por lá fiquei até às 12h. E, de novo, fiz mais amigos (fila de ingresso é uma experiência antropológica). E, de novo, não consegui o ingresso. Eles haviam acabado e eu ainda estava no mesmo lugar. Estranho né? Pois é. E dá-lhe dirigentes do futebol e funcionários da Ademg... afff! Bom, já estava eu sem esperanças e tentando me conformar com o fato de ir para um buteco na hora do jogo (que fique bem claro: não tenho nada contra butecos... mto pelo contrário... mas numa situação dessas eu realmente prefiro o estádio). Eis que, do nada, graças aos meus amigos de fila, consegui um ingresso. Sim, consegui um ingresso... de geral! E ainda quase apanhei pq qnd meu coleguinha foi me entregar o tao disputado objeto, dezenas vieram pra cima da gnt achando que éramos cambistas pq ele estava com muitos ingressos na mão. E pra provar o contrário???? Aaah... foi mta confusão. Resulatdo: fui embora com meu ingresso nas mãos sem maiores lesões. Físicas, né? Pq doida eu já havia ficado há mto tempo.
Coloquei o ingresso - de geral - no bolso, e fui embora como se estivesse carregando 500 mil reais. E o medo que eu tinha de "neguinho" me assaltar e levar o meu ingresso... nhú... desespero era mato!
Quando cheguei em casa e contei para as minhas amigas que eu tinha conseguido um ingresso - de geral - elas quase me mataram. Queriam de todo jeito me convencer que seria mto perigoso e que era melhor eu não ir. Mas eu, depois de ter passado por tudo isso, não iria desistir nunca. Já estava decidido. Ingresso na mão, camisa e bandeira e... bora pro Mineirão sozinha... pra geral. Sim, eu fiquei com medo. E cheguei a cogitar a hipótese de realmente não ir. Mas... tchan tchan tchan tchan.... eis que surge Adauto, meu amigo, meu rei, meu amjo da guarda. Ele era amigo de um amigo de um amigo que trabalhava no Estado de Minas e que tinha direito a pegar ingressos. Aaaah... o Brasil das influências... o Brasil do Q.I... nunca concordei tanto com isso como naquele dia. Em poucos minutos estava em minhas mãos um ingresso de Cadeira Cativa do Mineirão. "Cadeira Cativa???? Ah não... não tem de arquibancada não?" Não, não tinha. Era esse mesmo ou assitir na geral ou em um buteco. Era pegar ou largar. Eu, claro, peguei. E lá fui eu para o Mineirão. Camisa, bandeira e radinho nas mãos (escutar os bastidores na Itatiaia faz parte do ritual).
Fui... fui com uns amigos dos amigos dos amigos do meu amigo que eu nunca tinha visto na minha vida. Pessoas bacanas... Cruzeirenses... hehehe!!!
Chegamos e sentamos... na Cadeira Cativa. Quando eu olhei pra cima e vi a arquibancada lotada, o anel superior do Mineirão todo tomado... sinti um nozinho na garganta. Pois é... eu não me conformava de ver a bandeira da Máfia Azul se abrir e eu não estar debaixo dela.
Olhei para um lado, olhei para o outro... pensei, pensei e pensei de novo. Pronto... e lá fui eu (e Deus) correndo, desesperada, querendo achar o portão que dava acesso à arquibancada. Já sentia todos os meus pelinhos se arrepiando. Depois de muito correr e perguntar e procurar... achei!!!! Achei o portão. Cheguei perto do segurança e disse: "moço, pelo amor de Deus... deixa eu passar para o lado de lá... não quero ficar aqui não. Aqui não tem graça nenhuma." E ele, na maior calma, respondeu: "uai, pode. Mas se vc passar pra lá, não pode voltar pra cá mais não." Na hora que ele me respondeu isso, eu já disse, subindo as escadas, que não queria voltar pra lá era nunca mais. Adeus Cadeira Cativa... e salve salve Arquibancada. Ôh maravilha de cenário. Em menos de cinco minutos estava eu debaixo da bandeira da Máfia Azul. Inenarrável. Só quem já viveu consegue entender.
E assim foi... o jogo todo maravilhoso... ganhamos de 2x1 e fomos campeões do Campeonato Brasileiro de 2003. E eu vi o Alex (craque) dar a volta olímpica no Mineirão, enrolado na bandeira do Cruzeiro, antes mesmo de o jogo acabar. Chorei e chorei e chorei e não tenho vergonha de dizer.
E, claro, viramos a noite comemorando.
Dessa vez sim, num buteco!!!!

